O desafio da descarbonização automotiva passa pelos materiais

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A transformação da indústria automotiva costuma ser associada à eletrificação, mas nos bastidores há outra discussão tão importante quanto essa: a redução da pegada de carbono nos materiais que compõem os veículos. Segundo estudo da consultoria McKinsey, publicada em 2020, cerca de 18% das emissões ao longo do ciclo de vida de um automóvel estão relacionadas aos materiais utilizados em sua fabricação. À medida que os veículos elétricos avançam e as emissões de escapamento deixam de ser o principal fator da conta, essa participação pode ultrapassar 60% até 2040.

Esse movimento também já se reflete no Brasil. O programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) ampliou a forma de avaliar o impacto ambiental dos veículos ao considerar o conceito de análise “do berço ao portão”. Na prática, isso significa que a preocupação deixa de estar apenas no produto final e passa a considerar toda a cadeia de suprimentos, incentivando o uso de matérias-primas de menor impacto ambiental, incluindo materiais reciclados.

O desafio é que, para a indústria automotiva, apenas o fato do material ser reciclado não basta. Ele também precisa atender aos mesmos requisitos técnicos exigidos pelas aplicações mais críticas. Dados da consultoria MaxiQuim mostram que o consumo de plásticos reciclados pós-consumo (PCR) na fabricação de veículos e autopeças cresce de forma consistente no Brasil e já supera 71 mil toneladas por ano.

Ainda assim, aplicações estruturais ou componentes localizados sob o capô, sujeitos a altas temperaturas, vibração e esforços mecânicos constantes, exigem materiais com desempenho muito elevado. Em muitos casos, a reciclagem mecânica convencional reduz propriedades importantes do polímero, dificultando seu uso nessas aplicações.

O desafio, portanto, é ampliar o uso de conteúdo reciclado sem renunciar a requisitos de desempenho e segurança que são tão próprios da engenharia automotiva. Essa equação passa por uma visão mais ampla da economia circular. Reciclar deixa de ser apenas uma etapa de coleta e reaproveitamento para se tornar um processo de desenvolvimento tecnológico.

A qualidade da matéria-prima, rastreabilidade dos resíduos, consistência do fornecimento e formulação dos compostos tornam-se fatores tão importantes quanto o próprio índice de material reciclado.

Os avanços da indústria química mostram que já é possível desenvolver plásticos de engenharia com conteúdo reciclado capazes de oferecer resistência térmica e mecânica comparável à das resinas virgens. Isso permite superar uma percepção que ainda persiste em parte do mercado: a de que sustentabilidade necessariamente implica perda de desempenho.

A mobilidade de baixo carbono irá depender cada vez mais dessa capacidade de integrar inovação em materiais e gestão da cadeia de suprimentos. Quanto maior a colaboração entre indústria química, recicladores e montadoras, maiores serão as condições de ampliar a circularidade sem comprometer os padrões de qualidade e segurança que o setor exige.

Embora entender os gargalos da reciclagem plástica, e como eliminá-los, tenha sido desafiador, acredito que o modelo colaborativo de desenvolvimento de novos produtos, aplicações e materiais entre os stakeholders dessa cadeia trará uma contribuição significativa para avançarmos na busca das soluções necessárias.

A redução da pegada de carbono na indústria passará, obrigatoriamente, pela compreensão dos riscos e oportunidades desse ecossistema. Montadoras, sistemistas, fornecedores de matérias-primas e agentes de reciclagem deverão cada vez mais terem um relacionamento de caminharem não apenas na mesma direção, mas também no mesmo ritmo.

Por Gentil Boscolo, líder do negócio de plásticos de engenharia da BASF na América do Sul