Do plantio à reciclagem, setor de papel aponta desafios para avançar na agenda climática

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Abertura da ABTCP 2026 colocou em discussão resiliência das florestas plantadas, biotecnologia, circularidade e os desafios para ampliar a coleta seletiva no Brasil

As mudanças climáticas já impõem desafios que percorrem toda a cadeia de papel e celulose, da capacidade das florestas plantadas de resistir às novas condições ambientais à recuperação dos materiais depois do consumo. O tema esteve entre os destaques da abertura do 58º Congresso Internacional de Celulose e Papel da ABTCP, nesta terça-feira (6), em São Paulo.

Em suas participações, Paulo Hartung, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), e José Carlos da Fonseca Jr., presidente-executivo da Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel), abordaram diferentes pontos dessa transformação. Enquanto Hartung destacou a necessidade de aumentar a resiliência das florestas plantadas e avançar em novas tecnologias, José Carlos chamou atenção para a circularidade, a recuperação de embalagens de papel e os desafios da coleta seletiva.

Florestas mais resilientes

Hartung destacou a velocidade das transformações em curso e seus impactos sobre uma atividade diretamente relacionada ao uso da terra e à produção de madeira.

“Isso afeta quem usa a terra. Isso afeta quem produz madeira. Então, aumentar a resiliência das nossas florestas cultivadas, das nossas florestas plantadas, é um desafio”, afirmou.

Para o presidente da Ibá, enfrentar esse cenário passa também pela inovação. Ele lembrou a trajetória do setor no melhoramento genético e na clonagem, mas defendeu que a indústria esteja aberta a explorar novas alternativas.

“Dá para avançar nessa rota? Dá para avançar. Mas nós não estamos na hora de ter receios de percorrer outras rotas”, disse.

Entre essas novas possibilidades, Hartung destacou as biotecnologias e a necessidade de ampliar o diálogo em torno de sua utilização.

“Está na hora de a gente estudar as biotecnologias, conversar, convencer, articular, inclusive, as nossas boas agências internacionais. Esse é o desafio.”

Circularidade e coleta seletiva

Na outra ponta da cadeia, José Carlos destacou a posição do Brasil na recuperação e reciclagem de papel. Segundo o presidente-executivo da Empapel, o país apresenta desempenho relevante quando comparado aos principais produtores mundiais.

“Se compararmos os dez ou os oito maiores produtores de papel do mundo, nós estamos ali entre os que mais recuperam embalagens de papel, aparas de papel, reciclam e, portanto, contribuem efetivamente para a circularidade”, afirmou.

O executivo ponderou, no entanto, que ampliar esses resultados depende também de questões que estão fora da atuação direta das empresas. Uma delas é o avanço da coleta seletiva nos municípios brasileiros.

José Carlos defendeu que o desempenho já alcançado pelo setor reforça a cobrança por melhorias nessa infraestrutura.

“Com isso, ganha força, autoridade moral para cobrar das autoridades, dos reguladores, que melhorem a nossa própria capacidade de coleta seletiva para intensificar ainda mais esse papel”, afirmou.

Em sua participação, ele também relacionou as mudanças climáticas aos avanços tecnológicos e às transformações nos padrões e nas exigências dos consumidores. São fatores que, segundo José Carlos, pressionam o setor a se reinventar continuamente.

Desafio percorre toda a cadeia

As duas falas colocam em perspectiva diferentes dimensões de um mesmo desafio. A adaptação começa na origem, com florestas plantadas capazes de responder a condições climáticas em transformação, passa pelo desenvolvimento tecnológico e pela produção e chega ao pós-consumo, com a recuperação e reinserção dos materiais na cadeia.

Nesse percurso, os avanços já obtidos convivem com novos desafios. De um lado, o setor busca tecnologias capazes de aumentar a resiliência e a produtividade das florestas. De outro, ampliar a circularidade depende não apenas da capacidade de reciclagem, mas também de infraestrutura para que os materiais descartados sejam efetivamente coletados e recuperados.

O resultado é uma agenda ambiental que atravessa a cadeia produtiva e aproxima temas como adaptação climática, inovação, biotecnologia, reciclagem e políticas públicas de coleta seletiva.

O 58º Congresso Internacional de Celulose e Papel da ABTCP acontece de 6 a 8 de outubro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. A edição de 2026 tem como tema “O Fortalecimento da Bioeconomia de Base Florestal”.